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História resgatada: ciência e tecnologia a serviço da reconstituição

29/07/2015 - 09:43
Thiago Cury/ Fapemat Ciência
“E Jesus, tendo ressuscitado na manhã do primeiro dia da semana, apareceu primeiramente a Maria Madalena, da qual tinha expulsado sete demônios. E, partindo ela, anunciou-o àqueles que tinham estado com Ele, os quais estavam tristes e chorando. E, ouvindo eles que vivia e que tinha sido visto por ela, não o creram” [Marcos 16:9-11].
 
De acordo com a história narrada pela Bíblia, Maria Madalena tem papel importante na narrativa cristã, pois, além de simbolizar o arrependimento, é quem avista o Messias pela primeira vez após a ressurreição. Outra versão da história está no evangelho apócrifo de Filipe. Segundo o texto, ela foi casada com Jesus, tendo o casal gerado descendentes. Eis a versão retratada por Dan Brown, n’O Código da Vinci.
 
Mas como a nossa praia aqui é ciência, e não religião, eis que no último dia 22, data em que a Igreja Católica comemorou o Dia de Maria Madalena, dois brasileiros se destacaram no campo científico. Paulo Miamoto, paulista, pesquisador na área de Odontologia e Antropologia Forense, e Cícero Moraes, designer natural de Mato Grosso, reproduziram e expuseram a face da pecadora que virou santa. O evento ocorreu em São Máximo, região sul da França, na basílica que leva o nome da personagem bíblica.
 
 
Ao lado de Cícero Moraes, Paulo Miamoto [foto] trabalhou durante um mês na reconstrução da face de Maria Madalena
[Foto:
www.g1.com]
 
Para concretizar a obra, a dupla, que é vinculada à Equipe Brasileira de Antropologia Forense e Odontologia Legal, utilizou a técnica da fotogrametria. Nesse caso, a reconstrução virtual, em perspectiva e impressão tridimensionais, ocorre a partir de fotos do crânio. No exemplo de Maria Madalena, os restos ósseos da sua cabeça, que serviram de base para a elaboração da face, encontram-se na igreja francesa e podem ser vistos pelo público.
 
O experimento seguiu protocolos científicos, lançando mão de estratégia corriqueira em perícias. O programa, usado em obras arquitetônicas e cenas de crime, desenha pontos e linhas a partir do crânio, com projeções e ajustes que podem ser feitos pelo designer. A cor da pele e outras características têm base em pesquisa histórica. Não fosse a burocracia católica, o trabalho, que durou um mês para ser finalizado, teria chegado ao fim em 24 horas.
 
Antes disso, em 2014, a dupla reconstruiu o rosto de outro personagem importante para os católicos: Santo Antônio. A reconstituição teve a participação de antropólogos italianos do Museu de Antropologia de Pádua, cidade italiana de nascimento do santo e onde está exposto o seu crânio.
 
Para não haver predisposição na reconstrução, não foi passada a identidade do personagem aos brasileiros. Apenas algumas características, como sexo, idade [36 anos], ancestralidade europeia e cor da pele. Só depois de finalizado o trabalho é que as autoridades religiosas divulgaram que se tratava do santo casamenteiro. O resultado final foi a face de um homem com feições mais rústicas, e não com traços suaves que os fiéis se acostumaram a venerar.
 
À esquerda, a face tradicional de Santo Antônio. Ao lado, as feições reconstruídas
pelos pesquisadores brasileiros.
 
O currículo dos brasileiros
Paulo Miamoto tem graduação, especialização, mestrado e doutorado na área de Odontologia. Já Cícero Moraes é 3D Designer, tem graduação em Marketing e faz pós em Metodologia da Educação Superior. Ambos se conheceram em Brno, na República Tcheca, onde iniciaram parceria para pesquisar softwares de reconstrução facial. Os trabalhos desenvolvidos por eles são de natureza forense, acadêmica e arqueológica.
 
A Ebrafol

A Equipe Brasileira de Antropologia Forense e Odontologia Legal, constituída em 2014, é uma Organização Não Governamental técnico-científica e sem fins lucrativos. Como descreve o próprio site, a finalidade é “aplicar cientificamente a Antropologia Forense e a Odontologia Legal para a promoção de direitos humanos”. Profissionais de diversas áreas do conhecimento, como Design, Direito, Odontologia, Gestão Ambiental e Informática, fazem parte do quadro da Ebrafol.